A participação no CNL está aberta a todos os alunos do 3.º e 4.º ano de escolaridade do Agrupamento de Escolas Nº 2 de Abrantes. A prova de escola vai acontecer no dia 10 de dezembro de 2019, em todas as escolas do 1.º Ciclo do Agrupamento.
A obra selecionada: “O senhor do seu nariz”,
in O senhor do seu nariz e outras
histórias, de Álvaro Magalhães.
Podes ler aqui este conto encantador e divertido do Escritor Álvaro Magalhães
O senhor do seu nariz
Custou-me muito
nascer. Estava tão bem desnascido, aconchegado, sem ter nada que fazer. Mas
tinha de ser.
Foi então que
apareceu a fada. Tinha duas asas fininhas que a mantinham no ar e trazia uma
saia corda-rosa, muito rodada, que já não se usava.
Não foi
convidada mas apareceu. Foi o que lhe deu. Pousou a mão na minha testa e disse:
- A vida deste
rapaz vai dar para o torto.
- Não diga isso
- pediu a minha mãe, muito aflita.
- Digo, pois -
voltou a fada. - Ele terá um nariz do tamanho de um chouriço. Por isso. ..
E foi mesmo isso que aconteceu. O tempo ia
passando e o meu nariz crescia mais depressa do que eu. Quando parei de crescer
tinha um nariz a perder de vista, mas continuava otimista. Um nariz do tamanho
de um chouriço? Podia ser pior, dizia eu. E agora pergunto: não era pior se
fosse do tamanho de um presunto?
Era
desagradável ser tão diferente do resto da gente, mas que havia de fazer se era
esse o meu destino? Quanto ao meu nariz imponente, também era pesado e
obrigava-me a andar inclinado para a frente. Tinha dores nas costas desde
pequenino.
E não era em
todo o lado que cabíamos os dois. Havia sítios onde só ele ia. Eu esperava, cá
fora. Ou vice-versa. Tanta vez que isso aconteceu: ou entrava ele ou entrava
eu. E não era só isso. Ele chegava antes de mim a todo o lado. Quando eu
entrava já ele tinha lá estado. Era aborrecido, não digo que não, mas
habituei-me, que a gente habitua-se a tudo. Até a um nariz do tamanho de um
chouriço, Por isso. ..
Aliás, também
havia coisas que corriam bem e chegavam para me fazer feliz. Nas corridas, por
exemplo, ganhava sempre por um nariz. E, claro, cheirava como ninguém, pois
então. As pessoas cheiravam o mar, os bosques e as flores, eu cheirava o mar,
os bosques e as flores, como nem o mar, os bosques e as flores sabem que são.
Mas havia mais: para saber o que estava a acontecer bastava-me cheirar. E sabia
o que em cada casa, nesse dia, havia para o jantar. Se me esforçasse e
cheirasse mais forte, mais fundo, era capaz de perceber o que alguém estava a
fazer num recanto qualquer do outro lado do mundo.
Custa a
acreditar, mas é verdade. Aliás, bastava-me cheirar quando estava esfomeado.
Fechava os olhos e para ali ficava, a saborear aquilo de que mais gostava. Chegava
a ficar enfartado.
Porém, nem tudo
corria bem. Com um nariz tão grosso e tão comprido, nunca passava despercebido.
Estavam sempre a olhar para mim e a apontar-me um dedo. E as crianças fugiam
quando me viam, cheias de medo. Os outros também. E não era esse o único
inconveniente. Também derrubava as pessoas quando me virava de repente. Talvez
por isso, pouca gente se chegava a mim, ou passava perto, e sitio onde eu
chegasse logo ficava deserto.
As pessoas diziam que eu metia o nariz em todo
o lado, mesmo onde não era chamado. Ninguém gostava. Mas que havia eu de fazer?
Ele era o primeiro a chegar. E cheirava, cheirava. Ficava logo a saber se as
pessoas tinham tomado banho naquele dia, ou mudado a roupa interior, o que
tinham almoçado e por onde tinham andado. Se não estivesse constipado e a
fungar era até capaz de cheirar o que elas estavam a pensar. O problema, diziam
as pessoas, não era ser do tamanho de um chouriço. Era ele ser metediço.
Eu é que tinha de o carregar, de espantar os
pássaros que nele pousavam e os ratos que o queriam roer, à noite, sem saberem
que me estavam a roer a mim, e os outros é que se queixavam, mas enfim.
Estava visto que o mundo não era feito para
gente com um nariz assim, do tamanho de um chouriço. Por isso, fui-me afastando
e acabei a viver sozinho no cimo da serra, numa velha casa abandonada. Foi por
acaso que de¡ com ela. Mas era tão pequena que a ponta do meu nariz ficava fora
da janela. Passava o inverno coberto de neve. A minha vida estava mesmo a dar
para o torto. Como dissera a fada. Mas eu não me queixava. E não desistia nem
desanimava. Não tinha nada de meu, só era senhor do meu nariz, e, mesmo assim,
era feliz.
Até que, certa
manhã, apareceu lá em cima o carteiro da cidade.
Ia levar uma
carta, já não sei de quem porque ninguém me escrevia.
- Como vai a
vida lá em baixo? - perguntei.
- Vamos andando. Tudo normal.
- Eu sei.
Perguntei por perguntar. É vontade de falar. Porque isso sei eu. Olhe, agora
mesmo, sabe o que está a acontecer?
O carteiro
sorriu. Como havia ele de saber? Eu prossegui:
- Está um bolo
de mel e nozes a queimar no forno, ali para os lados da Praça das Flores. Acho
que é para ai. ..
- Como é que sabe?
- Cheira-me a queimado para esse lado.
- Às tantas é a
minha mulher. Não tem cuidado.
O carteiro pôs
logo os pés ao caminho.
- Espere - disse eu. - Na mata da Pedra
Encantada também há uma fogueira que não foi bem apagada. Esta nortada fará
dela um grande incêndio. Isso é certinho.
O carteiro
fez-se outra vez ao caminho.
- Espere! Ainda
não e tudo - disse eu. - O tempo está a mudar e a meio da madrugada chegará um
temporal vindo do mar. Não é normal, nesta altura do ano, e quem não proteger
os seus bens vai chorar quando acordar.
Ao carteiro
custava-lhe a acreditar que eu pudesse
adivinhar o que iria acontecer, mesmo que o tivesse cheirado. Mas pelo sim,
pelo não, despediu-se e foi andando, muito apressado.
Lá em baixo, deu as notícias do meu nariz e
tudo aquilo se confirmou. O incêndio foi evitado e o grande temporal que chegou
de madrugada poucos males causou. Só o bolo de mel e nozes é que não se salvou.
Quando o carteiro entrou em casa, muito atarantado, já ele estava esturricado.
Foi então que
as pessoas perceberam que eu, afinal, tinha muita utilidade. E puseram-me ao
serviço da cidade. Já que um nariz assim dava tanto jeito, era uma arma, um
poder, não um defeito.
Passei a viver na praça principal, num palácio
muito espaçoso de paredes acolchoadas (por causa das narigadas). E o meu nariz,
que sempre fora famoso, passou de incómodo a delicado e precioso. Era tão útil
que viu, enfim, reconhecido o seu valor. E foi assim que deixei de ser um
cheirinhas para ser um cheirador. O Senhor Cheirador. O caminho de casa estava
sempre cheio de gente que vinha pedir um favor, ouvir uma opinião. Eu lhes
dizia se me cheirava. Ou não.
Até que um dia, a meio da primavera, chegou à
cidade um aroma desconhecido. Podia ser uma coisa boa, podia ser uma coisa má e
era preciso saber o que aquilo era. O desconhecido é um monstro muito temido.
E o que era aquilo, afinal? Só se sabia que
cheirava mal. Queijo, era o que me parecia, mas feito com coisas que cá, na
Terra, não havia. E com outra arte. Talvez o fizessem em Vénus, Saturno. Ou
antes, em Marte.
- Estamos perdidos - gritou o governador da
cidade. - Vêm ai os marcianos! Vão invadir a Terra.
Estava visto
que ia começar uma guerra.
Pé ante pé, segui
o rasto daquele cheiro, com vários homens atrás, e foi assim que apanhamos um
casal de marcianos que estava a fazer um piquenique no sopé da serra.
Assim que viram
chegar o meu nariz enfiaram-se num disco voador que, num instante, desapareceu
no ar. Só ficou um queijo vermelho com buracos no meio. Cheirava mal, mas era
delicioso. Pelo menos, foi o que disse o Sr. Veloso, o único que teve a coragem
de o provar. Comeu até ficar cheio.
E foi assim.
Havia quem dissesse que aquilo era o principio do fim, ou seja, o princípio de
uma invasão, e que o meu nariz tinha sido a nossa salvação. Eu acho que não,
mas enfim.
Fosse como fosse, fizeram de mim um herói. E o
governador da cidade agradecia, ladeado por um padre e um juiz, pendurando uma
medalha de ouro na ponta do meu nariz.
O tempo foi passando, ora depressa, ora
devagar, sem que nada de especial acontecesse. Até que, numa certa madrugada,
cheirou-me a uma coisa que já não me cheirava há muito tempo. Mais exatamente,
desde o dia do meu nascimento. Aos outros não lhes cheirava a nada, a mim
cheirava-me a pó de fada. Segui o rasto cheiroso e fui parar ao beco mais
escuro da cidade, onde encontrei uma fada em muito mau estado. Era uma fada do
ar mas estava estendida na lama, incapaz de se mexer. Tinha duas asas
transparentes, muito amarrotadas, e trazia uma saia cor-de-rosa, muito rodada,
que já não se usava.
- Não te lembras de mim? - perguntei.
Ela disse que
sim, a olhar para o chão, talvez envergonhada pelo que tinha feito. E disse,
por fim, com as mãos cruzadas sobre o peito:
- Desculpa
ter-te dado um nariz do tamanho de um chouriço.
- Deixa lá isso - disse eu. - Até me deu
jeito. E agora diz-me: o que te aconteceu?
- A minha vida
de fada deu para o torto. Não sei porquê, esqueci-me do sítio onde fica a porta
no ar por onde costumo passar. O que havia de me acontecer! E logo hoje que
tinha lá tanto que fazer.
- E agora?
- Não consigo regressar e o meu corpo de fada
está a definhar. Acho que vou morrer.
- Não se te mexeres. Quem não se mexe emperra.
Se não podes ser fada e voar e passar por uma porta no ar, aguenta-te em terra.
Gostas de sopa de ervilhas e hortelã? E de pão fresco pela manhã?
A fada não
sabia se gostava nem se lhe apetecia. Só queria um sítio calmo e limpo para
morrer. Mas apreciou a sopa de ervilhas e hortelã que lhe preparei. E que a fez
renascer. Na manhã seguinte, também apreciou o pão acabado de cozer. E o sabor
do leite não era pior. Para ela era tudo novo, era tudo bom, mas podia ser ainda
melhor.
Por isso,
passou a cozinhar à sua maneira, usando uns pozinhos que voavam no ar da
cozinha. Pão de fada, cozido de fada, salada de fada, bolinhos de fada. Não vos
digo nada! Aquilo não era uma fada do ar, era uma fada do lar, E era só minha.
- Além de ti,
ninguém me pode ver ou será o meu fim - disse ela abraçada a mim.
E foi assim que nunca mais se abriram as
portas e as janelas da minha casa. Além disso, deixei de receber visitas e
mandei levantar ainda mais os muros do jardim. Mas aqueles aromas escapavam
pelas frinchas de portas e janelas. As pessoas paravam de caminhar na rua e
ficavam com o nariz no ar. Nunca ninguém tinha cozinhado tão bem. Logo, ali
havia qualquer magia, qualquer feitiço. Não era preciso ter um nariz do tamanho
de um chouriço para dar por isso. E, um dia, um rapaz mais curioso e mais
destemido saltou o muro e deparou com a fada, que andava no jardim, a colher
verduras para o jantar.
- Ah! Uma fada
do ar - disse ele, muito espantado. - O que está ela aqui a fazer?
A noticia deu a volta à cidade e todos a
queriam ver.
- Tenho de partir ainda esta noite. Ou estarei
morta ao amanhecer - disse a fada a chorar. - Mas ja não sei onde guardei as
asas, nem onde fica a porta no ar.
Levei-a até à
montanha, a um sítio onde, de vez em quando, também me cheirava a pão de fada,
a cozido de fada, a salada de fada e a bolinhos de fada. - Sempre que passo por
aqui lembro-me de ti.
- E não dizias nada!?
Não queria que
te fosses embora. Mas agora. ..
A ela não lhe
cheirava a nada, mas apalpou o ar em volta e
encontrou o que procurava. – A porta no ar. É aqui. Já posso passar.
Na hora da
despedida, a fada agarrou-se ao meu nariz a chorar, muito comovida.
Dizia ela:
- Devo-te a vida. Este nariz foi a minha
salvação.
- E a minha,
não?
Ela nem me
ouviu. E continuou:
- Agora sei porque assim te fadei, eu que
nunca tinha feito mal a ninguém. Era para meu próprio bem. Às vezes, as fadas
também sabem o que vai acontecer. Sabem mas não sabem que sabem. Percebes?
Sabem sem o saber.
Eu também
estava comovido, não o posso negar, e o meu nariz começou a fungar.
A fada afastou-se para não se molhar e
prometeu voltar todos os domingos de madrugada para fazer comida de fada e matar
saudades.
Quando ela abriu a tal porta saíram de lá
tantos perfumes intensos e diferentes que o meu nariz se pôs a tossir.
Ela começou a
rir. Depois deu duas voltas no ar e voou como só uma fada sabe voar.
-Até domingo!-
disse ela antes de fechar a porta no ar.
E eu:
- Não venhas
tarde. Mal posso esperar.








